22 fevereiro 2007

O Clube dos asmáticos

A asma –disse-me um asmático profissional –é mal de que a medicina pouco sabe. De asma só entendem os que padecem dela. Era preciso fundar o Clube dos Asmáticos. Todos os autênticos asmáticos sofrem de uma série de coisas comuns, que propiciam algumas observações de ordem terapêutica. Um mais profundo conhecimento dessa preamar de infelicidades orgânicas somente seria possível caso as verificações pessoais pudessem ser agrupadas e cotejadas em conclave permanente.

O asmático –continuou –como o louco, o poeta e o mar, é, antes de tudo, uma vítima da lua. As fases lunares atuam sobre ele com uma turbulência evidente e uma regularidade cronométrica. De todas as luas, a mais penosa para o peito é a Lua Nova. Um prisioneiro, dentro da cela, de acordo com o comportamento de seu aparelho respiratório , é capaz de afirmar de que tamanho anda a lua no céu. Quando o Oceano Atlântico se espatifa com violência contra o cais do Flamengo, podemos estar seguros de que os asmáticos do Rio andam passando por uma sufocação angustiosa.

O asmático é uma conformação orgânica irritadamente alérgica a tudo que existe no ar e não faz parte do ar. Os ciclos polímicos são a sua perdição. Ao entrar da primavera, festa para a natureza, o pólen invisível que se conduz no vento o asfixia. É também o asmático verdadeiro higrômetro, mais que isso, costuma prever as mudanças de umidade atmosférica, quando, por exemplo, sopram do Sul as famosas ondas de frio.

O difícil da asma é que há remédios demais para ela. Queixa-se a vítima de que tais preparados específicos acabam viciando o organismo e perdendo a eficácia. Uma conquista histórica para o alívio da terrível dispnéia foi, indubitavelmente, a reforma ortográfica, para os asmáticos de língua portuguesa, que eliminou para sempre do mal aquele irrespirável th. É muito mais cômodo sofrer de asma do que de asthma.

Um dos escopos do clube seria organizar um levantamento cabal de todos os remédios contra a asma. Existem por ai senhoras de altos recursos pecuniários que se curaram com receitas da China ou do Indostão. Por falta de um órgão classista, não puderam transmitir a seus pares as inestimáveis descobertas. O clube estudaria igualmente a influencia da asma sobre a sensibilidade e sobre o comportamento. Homens eminentes nas letras, nas artes e nas ciências, foram asmáticos. André Maurois explica a ocorrência da asma em Marcel Proust através das suas relações afetivas na infância. Pesquisaria ainda o folclore da asma (puxa, puxação, puxado, puxamento e puxaria, no interior do Brasil), que é variado e sugestivo. Existem centenas de simpatias preconizadas por velhas curandeiras para o tratamento radical da puxeira. Dou uma de exemplo: penugem de pato torrada, bebida como chá em três luas novas consecutivas.

Protestaria também o clube contra as chacotas incompreensíveis à natureza do asmático. Tornaria explícito que o asmático (embora a ronqueira dos gatos) nada possui de necessariamente felino. Cotejaria as posições mais propícias ao acesso, valor este muito eficiente, e de que os médicos não cogitam. Mostraria que a asma é um mal ecumênico.
Aprofundaria certas noções entre asma e doenças e entre asma e longevidade. Enfim, há todo um mundo a revelar e outro a descobrir.

Terminando, devo dizer que não existe nada mais ofensivo para um asmático do que a impertinência: “Isso pega?”



Autoria: Paulo Mendes Campos



0 Dê sua opinião:

Postar um comentário

"Os comentários publicados sistema são de exclusiva e integral responsabilidade e autoria dos leitores que dele fizerem uso. Os autores deste blog reservam-se, desde já, o direito de excluir comentários e textos que julgarem ofensivos, difamatórios, caluniosos, preconceituosos ou de alguma forma prejudiciais a terceiros. Textos de caráter promocional ou sem a devida identificação de seu autor também poderão ser excluídos".

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...